A avaliação do custo ecológico de uma grande cidade moderna nos oferece uma abordagem indispensável. A questão é importante como avaliação de casos consumados. E, mais relevante ainda, para oferecer opções no sentido de frear o crescimento incontido das cidades de porte médio.
Nos países como o Brasil, onde não tem havido qualquer preocupação mais séria com a invasão incontrolável dos espaços rurais pelos tecidos urbanos, a situação é particularmente crítica. Mesmo porque, para reverter o processo, ou pelo menos contê-lo em níveis razoáveis, seria necessária uma reforma de mentalidade administrativa, mediante a incorporação de outras dimensões da percepção dos fatos espaciais. As cidades em processo rápido de crescimento no Brasil indicam pelo menos três modalidades de crescimento dos organismos urbanos: um crescimento horizontal por partilha de espaços de antigas chácaras ou glebas congeladas para especulação, de dinâmica similar a uma mancha de óleo em expansão; um crescimento vertical, à custa de edifícios de muitos andares, aproveitando as facilidades aparentes dos espaços centrais e subcentrais das cidades de porte médio, acumulando funções residenciais em uma área de permanência duvidosa para tais funções; e, por fim, o mecanismo de maior gravidade, a partilha de glebas situadas em posições descontínuas, a quilômetros de distância da área central, inicialmente semi-isoladas no meio de sítios e fazendas, os quais, por sua vez, são espaços potenciais para loteamentos ulteriores e instalações de unidades industriais, com eliminação quase total das funções agrárias que responderam pelo crescimento e a riqueza iniciais da própria cidade.
No Brasil do Sudeste, até a década dos 50, as cidades herdeiras do ciclo do café eram relativamente contidas e funcionais, terminando bruscamente onde começava o mundo rural. Os derradeiros quarteirões urbanos faziam contato brusco com os primeiros e intermináveis cafezais e campos de culturas em processo de diferenciação. Muitas vezes elas ficavam confinadas entre a linha dos trilhos e o eixo das rodovias: alguns quarteirões de além-linha; uns tantos quarteirões de além-estrada. Pouco ímpeto na conquista dos espaços rurais adjacentes.
Em 40 anos, sob o impacto de uma urbanização agressiva, estimulada pela industrialização e pela descoberta do valor não-agrário dos espaços rurais, tudo se modificou, em uma dinâmica pontilhada de negatividades e de alto custo social, propiciadora de imensas desigualdades.
Para conciliar desenvolvimento com justiça social, manter um equilíbrio razoável e flexível entre os espaços rurais e urbanos, compatibilizar os espaços industriais com os espaços de moradia dos homens-habitantes, garantir a eficiência produtiva dos espaços agrários, ou seja, para novos planos, novas ações e novas leis: há que se fazer um novo chamamento à consciência crítica técnico-científica dos brasileiros que não aderiram às oligarquias gananciosas.
Aziz N. Ab'Sáber. Humanidades, número 10, 1986, pag. 105-106 (com adaptações)
"Apud" UNB / CESPE - MMA / IBAMA ( 8 de junho de 2002)