Muitas regras propostas para a conservação da biodiversidade em paisagens fragmentadas são difíceis de serem colocadas em prática. Um modo promissor de aplicar essas regras se baseia na escolha de um grupo de espécies guarda-chuva. Usando essas espécies, seria necessário tentar compreender os requisitos mínimos para sua persistência em termos de área, adequação de hábitat, e arranjo de fragmentos.
Um primeiro e rápido diagnóstico dessas necessidades pode ser obtido, mesmo na ausência de dados biológicos detalhados, utilizando: métricas que combinem conhecimentos biológicos básicos e características da paisagem; índices de similaridades estruturais para inferir a permeabilidade da matriz; e a teoria dos grafos para ajudar a determinar os elementos-chave da paisagem.
Obviamente, esta abordagem não substitui todo o conhecimento detalhado sobre os processos ecológicos que agem sobre o crescimento populacional ou a extinção, necessários para analisar plenamente a persistência de espécies em uma paisagem fragmentada. Porém, parece ser uma boa abordagem alternativa à análise puramente estrutural da paisagem (e.g., conservar fragmentos grandes e bem conectados) quando dados biológicos detalhados não estiverem disponíveis.
A eficácia dessa abordagem dependerá da escolha precisa de espécies guarda-chuva, algo que em si não costuma ser uma tarefa fácil. Primeiro, seria necessário testar se a presença dessas espécies está significativamente relacionada com a co-ocorrência de um grande número de outras espécies, usando áreas previamente bem estudadas. Segundo, a escolha deveria ser feita de acordo com o grau de fragmentação e por grupo de espécies definidas pelo seu comportamento biológico em relação à fragmentação. Esta abordagem combina uma análise dos processos ecológicos que levam à extinção (que variam de acordo com o grupo funcional) com estudos detalhados de um restrito grupo de espécies (escolhidas entre os “grupos funcionais guarda-chuva”).
Acredito que a compreensão de como as diferentes espécies guarda-chuva respondem à mesma paisagem, e de como essas espécies guarda-chuva respondem a diferentes estruturas de paisagem, pode nos levar à aplicação de regras pouco óbvias para a conservação biológica, e desse modo encontrar as condições mínimas necessárias para a preservação de um grande número de espécies em paisagens fragmentadas.
Por: Jean Paul Metzger
Natureza & Conservação - vol. 4 - nº2 - Outubro 2006 - pp. 11-23